Movido pela dor da saudade e pelo último raio de esperança em abraçar o seu filho, Adão ergueu o cutelo para matar o cordeiro.
De seus trêmulos lábios, escapa-se então uma aflitiva oração em favor de seu filho:
Senhor, hoje eu compreendo o quanto sofres com a rebeldia de teus filhos rebeldes, que trocaram o teu amor e o calor de uma família amorosa que vive no seio da luz, pelas trevas do vale, onde o desespero e a morte atraem com ilusões de vitória.
Neste momento minha mão está erguida para ferir esta inocente ovelha que, com seu sangue precioso alimentará o fogo da esperança em abraçar o meu filho que se encontra perdido.
Faça Senhor, com que o brilho desta chama possa alcançar o meu Caim onde ele se encontra, fazendo-o voltar ao lar arrependido.
Todas os súditos do Eterno com emoção contemplavam a comovente cena de significado tão grandioso.
Naquele pai tremente e aflito, pronto a sacrificar em favor do filho errante, viam o grande Pai que, para atrair Seus filhos humanos do vale da perdição, ofereceria o maior sacrifício.
Após sua angustiante oração, Adão imolou o cordeiro.
O fogo da esperança ergueu-se imediatamente em brilhante chama, expulsando as trevas que envolviam aquela colina.
Caim que movido pela alegria de ser sábado erguera a fronte nas trevas na expectativa de contemplar o brilho da vitória, ergueu as mãos aos céus agradecido quando viu surgir no escurecido horizonte a estrela da aceitação.
Cheio de ânimo prosseguiu em seus passos de fé.
Embora lhe fosse impossível enxergar e compreender todos os obstáculos que surgiam em seu caminho fazendo-o tropeçar, mantinha o olhar fixo no brilho do cordeiro imolado, avançando sempre, com a certeza da vitória.
Os passos de Caim conduziram-no finalmente para junto da colina, onde podia ver sua família reunida sob a luz do altar.
Com o coração pulsando forte pelo cansaço e pela emoção galgou em ligeiros passos a colina, detendo-se junto ao altar.
Sua família, com os olhos cerrados orava por ele.
Não conteve as lágrimas, ao ouvir seu pai clamar:
Senhor! Meu Caim, meu Caim!
Quando o envolverei em meus braços?!
Quisera voltar ao passado, quando com prazer tomava-o no colo.
Ele era a minha alegria, e esperava têlo sempre salvo junto a mim.
Mas oh, Senhor! Ele foi crescendo e se afastando, levado pelos seus sonhos de aventura.
E hoje, já é o quarto dia sem o nosso Caim!
Meu coração está partido pela sua ausência, e já não suporto viver sem ele!
Se for possível Senhor, traga de volta o nosso Caim, e que ele seja feliz ao Teu lado. Amém.
Terminada a oração, Adão abriu os olhos para contemplar a chama do perdão que poderia, quem sabe, atrair seu filho daquele vale sombrio.
Seu olhar pousou de cheio em Caim que jazia prostrado junto ao altar.
Sem conter a alegria, Adão com um brado de vitória saltou para junto de seu filho, envolvendo-o em seus braços.
Toda a família o acompanhou nesse gesto carinhoso, festejando com risos e lágrimas de emoção, o retorno daquele filho e irmão amado.
Sob a luz do altar, todos assentaram-se finalmente, passando a ouvir com atenção a experiência passada por Caim naquela densa floresta.
Ele contou do medo que sentiu naquela primeira noite fora de casa; falou do vale da morte, onde viu tantos ossos de animais devorados com ferocidade; contou da luz que surgira ao entardecer, fazendo-o apressar seus passos julgando ser o surgimento de um sol.
Falou do brilhante anjo que o atraíra para as divisas do Éden, levando-o com seus conselhos e palavras de sabedoria e amor a uma mudança de rumo.
Contou de seu retorno, das lutas e tentações que teve de enfrentar a cada passo.
Concluiu contando da alegria que sentiu, ao ver naquela noite o surgimento do fogo sobre o altar, que semelhante a uma estrela, guiou os seus passos através daquele vale tomado pelas trevas.
Para a família, consolada pelo retorno de Caim, surgiu finalmente o alvorecer da alegre vitória, trazendo em sua brisa o aroma dos verdejantes prados edênicos cobertos de eternas flores.
Naquela manhã de sábado, uniram-se em cânticos de gratidão ao Criador, pela vida, pelo perdão, e pela certeza de que sua feliz união jamais seria maculada pelo pecado.